«Bom dia. Quero começar por cumprimentar e agradecer a todos os participantes: oradores, moderadores e público presente; à Fundação Calouste Gulbenkian, pela hospitalidade, em especial, ao Professor António Feijó, que propôs que nos reuníssemos aqui; e à Professora Joana Matos Frias, que nos concedeu publicarmos na Colóquio/Letras a versão escrita deste pequeno colóquio.
De facto, ocorreu-me chamar-lhe “Pequeno Colóquio da Close Reading.” Mas isso não só dava à situação o tom errado como presumia o conceito de médio colóquio ou pior ainda de um “Grande Colóquio da Close Reading.” Já basta chamar-lhe “da close reading.” Para todos os efeitos, é um termo técnico e aparentemente uma palavra mágica para académicos, a avaliar pela prontidão das vossas respostas, que, de resto, me deixou bastante feliz. De há tempos para cá, reparei que vários de nós se interessavam de novo pela close reading. Não significa que houvesse uma convergência de motivos e opiniões, mas era, pelo menos, uma reacção partilhada a alguma coisa. Na pior das hipóteses, um reflexo condicionado ou uma expressão nostálgica. E a verdade é que todos aceitaram depressa, ou então — ou então nem sequer responderam. Os primeiros organizam-se ao longo de um espectro que vai de um interesse filosófico e histórico pela close reading a um interesse crítico pela close reading. Os que nem responderam têm em comum o serem não-académicos. Excepção feita a Luísa Costa Gomes, que é uma close reader (e que reader) na qualidade de escritora, todos os não-académicos convidados simplesmente ignoraram as minhas mensagens. Imagino que imaginem que conversar com académicos é uma espécie de emboscada. Ou talvez tenham achado, apesar das minhas garantias em contrário, que se tratava de uma ocasião para especialistas. Resta saber se não tinham razão.
Talvez a close reading não faça sentido separadamente da universidade.
Quanto à Literatura, há uma certa clivagem ou uma desconfiança mútua entre civis e académicos cujos maiores responsáveis estão talvez deste lado. Não que os primeiros estejam isentos de conversa fiada e dos próprios métodos de violência. Só que ao longo de muitas décadas, os Estudos Literários abraçaram a intimidação metodológica como estratégia de sobrevivência, em grande medida, em torno de ideias sobre a linguagem literária cuja prática é a close reading, ou envolve a close reading. Por exemplo, a ideia segundo a qual existe “epistemologia distintiva” associada às descrições e relações que resultam de certas técnicas de leitura, que privilegiam uma atenção detalhada à linguagem e à forma, a interpretação do texto desligada de noções extra-literárias. Para sustentar essa (entre aspas) “epistemologia”, desenvolvemos um jargão e uma parole académica, que por um lado nos faz acreditar que vemos os textos com maior clareza que os comuns e que por outro lado levanta neles a suspeita de que somos um género de paranóicos, além disso, um clube fechado, que escreve e fala de modos esquisitos. Em nome do ‘rigor’, tornámo-nos difíceis de ler. Em nome da ‘objectividade’, tornámo-nos irrelevantes. Em nome da perspicuidade metodológica, alienámos a qualidade da prosa. Somos obscuros. Somos pedantes. Quero dar-vos uma novidade: somos objecto de chacota. Agora que surgiram aplicações a fazer por nós o trabalho da leitura — e num caricatural número de casos, as diferenças não são óbvias — seremos dispensáveis a breve trecho. Que ironia formidável sermos dispensados pelo nosso próprio jargão. (Como diz o Abel Barros Baptista: “sempre é melhor a inteligência artificial do que a inépcia natural”.) Que o recurso à IA se generalize entre docentes e investigadores — e não só nas Ciências Sociais, que nunca se torturaram com a linguagem, mas que tantas vezes torturam com a linguagem — que isso se tenha generalizado entre nós, não é motivo de surpresa. Mas é motivo de preocupação.
Por estas e por outras, como se queixava Geoffrey Hartmann há cinquenta anos, ninguém nos consulta para assuntos sérios (Criticism in the Wilderness, Yale University Press: 293). Aos olhos da sociedade, estamos cá para que os miúdos indecisos voltem inteiros a casa com o mínimo de danos; e, segundo a televisão, para formar professores de secundário, que os encham previamente de “competências” e “conhecimentos”. Falhámos em explicar aos outros o que há de sério e importante no que fazemos e acima de tudo falhámos em explicá-lo a nós próprios e aos estudantes. Ou não. Ouço e leio colegas falar sobre a Didática da Literatura e sobre o presente e futuro da instituição e dou comigo a pensar que somos infalíveis. Longe vão as querelas em torno da falácia afectiva, da reader-response, da estética da recepção. Longe vão os tempos em que Bloom barafustava contra a precedência da política sobre a leitura (como se isso não fosse político). Longe vão os tempos em que a arte de ler ocupava o centro da atenção. Longe aliás vão os tempos em que ler dava trabalho.
A situação não é nova, nem animadora. A crítica e os Estudos Literários estão em vias de extinção. Exagero? Não sei se exagero. (Ninguém sabe.) Em cinco, dez anos, não é certo que sejam reconhecíveis, ou que ainda contem para alguém. Talvez isso não seja mau em absoluto, no entanto, a alternativa não é promissora. Vem à memória o episódio em que Wittgenstein bate à porta de F.R. Leavis para lhe dizer: “give up literary criticism.” Em contrapartida, a via de extinção tem sido sempre uma força motriz. De x em x anos, há pequenos, médios e às vezes grandes colóquios para salvar a respeitabilidade dos Estudos Literários. Colóquios de que resultam descrições solenes da sua importância específica e ardilosas esperanças. Seguem-se acções de formação, dadas por informáticos, e assim sucessivamente. Quanto mais se faz para salvar a respeitabilidade do ramo, pior se lê. Os melhores deles todos vão-se jubilando. A profissão perde piada. Torna-se elegíaca. Em momentos de maior desânimo, dá a sensação de que andamos a arrastar um morto.
A extinção do nosso modo de vida é talvez aquilo a que estamos a reagir ao revisitar a close reading. Modo de vida que nos pare cia um baluarte, ou uma espécie de asilo, como escreveu John Williams. Em face da desordem global, o texto parece terreno firme; a close reading, um simulacro de sanidade. Não nos afastamos aliás dos seus primeiros proponentes que, entre Guerras, esperavam, há um século, mexer na leitura e reabilitar um significado estável — uma reconciliação com a “objectividade”; ou, como propôs alguém, uma harmonia orgânica entre ‘eu’ e ‘forma’, pastoril. Mas tal não passa de uma ilusão. Apesar das seduções da proximidade, apesar da sua relativa eficácia, até certo ponto útil na sala de aula, os seus resultados práticos apontam quase sempre na direcção da ambiguidade e da ironia, do paradoxo, da indecidibilidade. É essa aliás uma das virtudes close reading. A compreensão, frequentemente frustrante, da inviabilidade de uma compreensão final a que possamos chamar a ‘forma’ de qualquer texto, quanto mais o seu ‘significado.’
Em 1972, de Man notou que os estudos literários prosperam em torno do pressuposto segundo o qual “uma vez feitas as escolhas metodológicas correctas, se lhes seguirá uma leitura correcta ou um conjunto controlado de leituras” (O Ponto de Vista da Cegueira, Angelus Novus & Cotovia: 304, trad. Miguel Tamen). Este pressuposto persiste nas boas intenções de uma boa parte de nós, confiando, como Jonathan Kramnick, que às práticas da close reading corresponde um método privilegiado que nos assegura uma “epistemologia da crítica literária”, “distintiva,” uma epistemologia que as circunstâncias históricas e institucionais colocam “sob ataque” (Criticism & Truth, University of Chicago Press, 88, 1, 49) — e a qual devemos proteger. Adverte Kramnick em Criticism & Truth — e, há apenas quatro anos, ainda não estava plenamente ciente dos desafios colocados pela IA — que estamos perante “um evento de extinção na história do conhecimento” (2).
Verdade seja dita: esquecemo-nos com facilidade de que os Estudos Literários, que hoje tomamos como parte central e inalienável da Universidade, são uma conquista recente. Se não se estabeleceram sem grande resistência, podem desmantelar-se sem dificuldade. A sua extinção significará a extinção de práticas a mais essencial de cujas tarefas é a close reading, um saber lidar com a linguagem literária que não pode (sem enorme prejuízo) ser substituído por software. Como descrever porém tal prejuízo (de mais a mais, num sistema pesadamente dependente de fundos públicos), se, em poucos segundos, as subscrições disponíveis regurgitam “conjuntos controlados de leituras”, um simulacro da “leitura correcta”, em jargão à sua escolha? Não haverá nesses ‘conteúdos’ no mínimo a sombra uma “epistemologia” específica? Kramnick lamenta que o que se perde é um saber prático, análogo a técnicas artesanais: um saber-lidar-com-linguagem específico, cuja modalidade central é a close reading. Onde estão porém as regras que permitem a sua transmissão? Na prática, ou nas práticas, defende Kramnick bem-intencionadamente. No entanto, essas práticas parecem desfazer-se em chamas assim que cruzam a ponte para a vida geral. Ao mesmo tempo, a IA é um meteorito da direcção dos Estudos Literários. Há uns meses, numa palestra na FCSH, o Prof. António Branco dizia-nos informadamente e sem o menor regozijo: “aquilo que vocês fazem aqui — acabou.” Não sei se a sua ideia daquilo que fazemos corresponde exactamente àquilo que pensamos que fazemos e também não sei se a minha ideia do fazemos converge com a de muitos dos meus pares (aliás, sei que não converge). E também não sei se ajudará apelar à pena pública pela extinção do nosso modo de vida. Depois da turbina a vapor, ninguém sentiu muita falta da carroça; e escusado será dizer que os burros perderam o emprego.
Por outro lado, se atendermos à forma como a close reading desloca e ressignifica fragmentos dos seus objectos de atenção em frequente conflito com uma compreensão adequada desses mesmos objectos, separando-os, por exemplo, de considerações históricas e de contexto, é duvidoso falar de “conhecimento” onde muitas vezes não há senão pequenas vantagens pedagógicas; e é duvidoso falar de vantagens pedagógicas quando estas estão em conflito com uma compreensão adequada dos seus objectos. E eis-nos na situação de “derrota auto-infligida” a que de Man se referia.
Seja como for, não estamos dispostos a delegar a mais essencial das nossas tarefas. Não que os problemas da sociedade possam ser eliminados por via da fineza das nossas leituras e variedade de vocabulários, como achavam Leavis ou Richard Rorty. Mas há uma força da close reading que importa mais do que nunca. A de ser uma leitura a que é inerente a busca por tornar-se consciente das suas dificuldades e das suas inibições. Não se trata de salvar o planeta, ou a profissão, mas de ensinar os estudantes a não delegarem — nem sequer à filosofia — a sua relação com a linguagem; e, portanto, trata-se de os ensinar a não delegarem as suas autodescrições, a sua relação consigo mesmos e com os outros, esperando que isso lhes seja útil muito para lá da universidade. Trata-se de resguardar o seu encontro idiossincrático com a complexidade do texto da verbiagem que tende a obviar esse encontro. Não se trata de produzir ‘competências’ e ‘indicadores’ — não se trata de ‘inovação pedagógica’ — mas de consciencializar jovens adultos (através da discussão de poemas, contos, romances, filmes, imagens, ensaios) da sua relação com as maravilhas e as complexidades da linguagem, de que o presente parece querer privá-los.
Trata-se de ensinar sem estragar.
Como escreveu Wordsworth no célebre prefácio a Lyrical Ballads, para falar sobre poemas “com merecidas clareza e coerência, seria necessária uma descrição completa do estado actual do gosto público neste país, e determinar até que ponto é saudável ou degenerado” (trad. minha). É isso que está em jogo quando fazemos a nossa parte. Delegar as nossas descrições, seja a um jargão esotérico, seja ao papagueado insípido que o imita, é uma derrota que não é dos Estudos Literários, mas dos países. E é uma derrota da universidade. Não podemos delegar a linguagem sem embotar pessoas. Não podemos embotar pessoas sem degenerar comunidades. A close reading não é a única forma de aprender a não delegar a linguagem, no entanto, se é que ‘serve’ para alguma coisa voltar a falar da close reading, serve para isto. Para nos fazer ver com mais nitidez — directa e indirectamente — o que se sacrifica ao alienar a linguagem usada para descrever aquilo que mais nos importa.
Além disso, entretém. Já que a extinção é certa, melhor um colóquio estimulante e esperançoso do que um congresso sobre Didática da Literatura. Assim, esperando que este seja um grande pequeno, ou pequeno grande, como quiserem, colóquio da close reading, sejam muito bem-vindos: espero que gostem».