O Carlos apresenta este livro como uma dedicatória, de certa forma, uma oferenda. O título abrevia a referência para um modo de familiaridade, For Daido. É um livro para o Daido. Claro que esta familiaridade não é do contacto pessoal excepto no sentido da sua, do Carlos, convivência constante com a obra dele, Daido Moriyama. O título significa que este se tornou uma personagem habitual dos pensamentos do Carlos a respeito da fotografia. À superfície, este novo livro sugere um desvio da prática habitual. Põe em evidência uma (vamos dizer assim, embora eu não goste da metáfora) “linguagem” diferente. Mais próxima da do homenageado que da sua: uma linguagem que decorre da forma da homenagem. Já agora, importa dizer que a forma da homenagem, ou a homenagem enquanto forma, é um aspecto central da obra do Carlos e, talvez, da vida do fotógrafo, ou de um certo tipo de fotógrafo.
Uma daquelas séries que aparece e desaparece do site do artista é uma breve homenagem ao mestre italiano Guido Guidi. Já da sua filmografia consta A shimmer of happiness (2012), uma homenagem a Jonas Mekas. O próprio formato e decisões deste livro dialogam explicitamente com a de uma reedição do clássico de Daido Moriyama, Light and Shadow (1982) pela Kodansha (2009). A propósito de homenagens, o Carlos não levará a mal se eu der como exemplo uma passagem de uma conversa, aliás, a nossa primeira conversa há quase de dez anos, sobre o seu livro The Dew of Little Things (2016). Durante cerca de uma hora, em que falámos justamente de um constante diálogo do livro com a fotografia americana, em particular, com a obra Stephen Shore (é um livro com uma “linguagem” muito diferente, a cores e em grande formato), guardei para o fim uma pergunta que no princípio da conversa não sabia se poderia colocar, mas que um entendimento imediato me fez sentir que poderia ser feita sem melindre.
“Carlos”, perguntei eu, “posso perguntar uma coisa sobre a capa do teu livro? É que a capa é igualzinha à capa do Lago do Ron Jude (2015)” Não era uma provocação mas uma tentativa sincera de perceber a explicação de uma semelhança flagrante que um cínico poderia descrever como um knock off, um plágio. “Exactamente”, respondeu o Carlos: “eu gosto tanto do livro do Ron Jude que disse ao designer: «estás a ver esta capa? quero que a minha seja igualzinha,» — e foram precisas muitas tentativas até que ficasse exactamente igual.”
A resposta é desconcertante numa cultura ou numa ideologia artística da originalidade-über-alles, em que a originalidade está acima de todos os valores. Mas esta é uma ideologia enraizadamente modernista e talvez um pouco caduca. Vem de uma sensibilidade, digamos, eliotiana, que enfatiza a diferenciação da individualidade ou o indivíduo enquanto entidade e o triunfo individual enquanto objectivo com máxima prioridade sobre todas as outras considerações. Isto é criticável sob vários aspectos mas basta pensar num comentário de Alec Soth, que me acompanha. Nem toda a arte tem de ser arte de vanguarda, a fotografia não tem de estar constantemente a reinventar a sua forma (e se calhar este é um aspecto definidor da fotografia); tal como nem toda a música tem de ser como John Cage. A fotografia, observava Soth, é menos como John Cage e mais como a música popular e a linguagem corrente.
Talvez a fotografia seja uma arte caracterizada mais do que qualquer outra por uma contínua elaboração sobre o que já se fez a partir de reacções ao mundo inseparáveis da arte que as orienta. A história da fotografia é por definição uma história de reacções e de reacções a reacções. Segue-se que a homenagem enquanto forma (o diálogo com a tradição fotográfica), a homenagem, mais do que originalidade, a partilha e a admiração de exemplos, mais do que o secretismo em torno da prática, a continuação, mais do que a superação, a consciência das dívidas que nos formaram — o que significa que formaram a nossa relação com o mundo — mais do que a fatuidade da individualidade, a homenagem, dizia eu, é um dos modos fundamentais da fotografia consciente dos seus próprios processos. Toda a obra do Carlos Lobo, fotográfica e musical e filmográfica, enfatiza isto mesmo. Uma dívida impagável com a história da arte e com a história da fotografia, impagável senão a prestações: este livro é, em parte, uma dessas prestações. E é ainda uma explicitação da forma da homenagem enquanto afirmação artística aberta, assumida, consciente.
Daido Moriyama tem agora 87 anos. Há uma situação elegíaca para este livro. É uma homenagem em vida, que sofre a extinção do que celebra. A sua obra fotográfica e os seus escritos formam a investigação de uma vida em torno da desdivinização da imagem e dos seus modos de circulação, mas uma desdivinização que não a banaliza enquanto modo de relação, enquanto prática de que a câmara compacta é um instrumento útil mas sobretudo um companheiro de viagem, um amigo taciturno; enquanto modo de vida e não enquanto carreira, menos ainda enquanto via de perfeccionismo. Prática diária que se confunde com a própria respiração, com os próprios gestos, abandona a idealização inibitiva em favor do acto, de um fazer, da explicitação, da conclusão, do recomeço. Fazer, publicar, inscrever — de forma incessante, por quaisquer meios disponíveis, sem as intransigências projectivas que nos caricaturam. Fazer e seguir em frente. Vamos encontrar neste livro, sem o luxo dos negros japoneses, porque prescinde dos meios em favor da necessidade de fazer, vamos nele encontrar, além da atípica conspicuidade do grão, além de uma desinibição acerca do que conta como uma imagem fotográfica, além de vários tropos reconhecíveis do mestre, além, já agora, de cumprimentos ao diálogo da fotografia portuguesa com o Japão (a mais directa das quais uma memória de Patrícia Almeida); — além de tais elementos, vamos encontrar neste livro, dizia, um franqueamento do eu à beleza, à contingência, à fluidez, ao sofrimento, à destruição e à forma humana, mas também e sobretudo em relação ao destino a dar a isso tudo através da fotografia.
Antes de mais, uma atitude punk/diy que se caracteriza pela partilha desinibida e pelo entusiasmo pela beleza acima da originalidade individual. Uma atitude de aceitação visual de um sujeito transiente que não procura inventar, através da forma, aquilo que vê, nem reinventar o meio a cada livro, para o transcender nalgum sentido, proclamando a sua genialidade, mas antes reinventar-se a si mesmo através de cada livro, nunca abdicando de apontar na direcção da genialidade daqueles que nos ensinaram as possibilidades da visão; uma transcendência que decorre da aceitação das próprias reacções, na sua imperfeição e incompletude, e da compreensão de que nenhuma dessas reacções é uma conquista privada e unilateral.
Dedicado a Daido, For Daido é feito da vida e para a vida, portanto, uma dádiva, ainda que tenha um preço; e uma dedicatória sem peneiras àqueles que estão em simpatia com a sua (neste caso, deles) atitude.
Se pode parecer um desvio ou antes uma inflexão de linguagem, um projecto que esperou quase quinze anos para encontrar a sua forma própria (remontando ao período de The Idea of Silence, 2011) é assim uma peça coerente com todo o percurso do Carlos Lobo como fotógrafo. Não só no sentido em que uma vez mais defende uma ideia de fotografia ou antes uma ideia para a fotografia, mas enquanto peça num conjunto que, a cada instante, procura compreender-se em referência àquilo que ama. Pode dizer-se que o tema de fundo ou o motivo principal da obra fotográfica de Carlos Lobo é o seu amor à fotografia. Pode dizer-se que uma das suas qualidades é não cair na tentação de o esconder. Refiro-me portanto a um livro e a uma obra e a um artista e a um homem — e a um amigo — de uma honestidade e de uma generosidade sem paralelo. Le style, como escreveu Buffon, c’est l’homme même.